Longa baseado em romance de Clarice Lispector apreende a fala que busca dar forma ao caos da narradora de ‘A paixão segundo G.H.’

(…)

O longa de Carvalho apreende essa desorganização que leva a protagonista a não saber mais quem é e que se replica numa desorganização da fala. Daí, o livro tomar uma forma espiralada, que se inicia e termina com travessões, indicando uma continuidade antes circular do que linear, e repete, no princípio de cada capítulo, a frase final do anterior, além de retomar, a todo momento, questões já tratadas.

O filme se move também em espiral, não respeitando, por vezes, a ordem do livro — o que não é um demérito, e sim demonstra uma compreensão da estrutura narrativa que Clarice coloca em movimento. Não por acaso, a própria imagem da espiral é evocada já na abertura do filme. Na primeira vez que vemos G.H., sua figura aparece distorcida, espiralada, como se seu corpo se derretesse diante de nossas vistas, nos dando a ver a perda da “montagem humana” de que ela fala.